Poesia Completa, 1979-1994

Poesia Completa, 1979-1994

by Luís Miguel Nava

  • Language: Portuguese
  • Category: Poetry
  • Rating: 4.84
  • Pages: 290
  • Publish Date: March 1st 2002 by Publicações Dom Quixote
  • Isbn10: 9722020382
  • Isbn13: 9789722020381

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Num dos pratos, o mar há-de revolver-se, debater-se, rebentar, há-de trazer à superfície a força das entranhas e atrair o céu, há-de-o fazer precipitar-se até com ele se confundir, e as próprias rochas através das quais o rapaz segue hão-de pesar no prato ferozmente. " " Os Pratos da Balança " 137 " No extremo do seu braço, onde era de supor que não houvesse senão uma, ele na realidade tinha, uma envolvendo a outra, duas mãos. Apesar de apenas uma, provavelmente a que mais próxima estava do seu espírito, fazer o mar vir à superfície daquilo em que tocava, era impossível distingui-las, sobretudo pelo facto de elas, sem que alguma vez tenhamos descoberto de que modo, permutarem entre si. " " As Mãos " 150 O Céu sob as Entranhas " Perdia-se-lhe o corpo no deserto, que dentro dele aos poucos conquistava um espaço cada vez maior, novos contornos, novas posições, e lhe envolvia os órgãos que, isolados nas areias, adquiriam uma reverberação particular. As várias partes de que só por abstracção se chagava à noção de um todo começavam a afastar-se umas das outras, de forma que entre elas não tardou que espumejassem as marés e a própria via-láctea principiasse a abrir caminho. Comparável a essa ignorância, só muitas vezes a que diz respeito à nossa genealogia, a qual a vários títulos - e não por isso apenas - deveria ser relacionada com o nosso corpo. Se me fosse possível ver na rua um osso ou um órgão meu, dificilmente o distinguiria dos de outras pessoas junto dos quais ele estivesse, do mesmo modo que não conheceria o meu antepassado de quem nunca me chegou às mãos qualquer retrato. O problema que daqui decorre é o de saber se o facto de a cor deles divergir altera a relação que, mesmo que o ignore, com eles tem quem os possui; ou seja, o de saber se alguém, por tê-los verdes, ou verdes alguns deles e outros azuis, se sente, por exemplo, mais feliz - ainda que, repito, essa questão se lhe não ponha - do que quem os tem castanhos, ou pura e simplesmente duma cor que como tal se não chegue a definir, como se só em dadas circunstâncias se justificasse que a questão da cor fosse encarada. Um outro passo a dar nos meandros deste raciocínio é o que nos leva a pôr a hipótese de os ossos se poderem refugiar, em certos casos, na memória, como se esta os absorvesse e quem por eles fosse constituído então se invertebrasse ou reduzisse a um mero filamento onde assentasse a carapaça da memória, no interior da qual o corpo inteiro se engolfasse até completamente se sumir. " " A Cor dos Ossos " 174 - 175 " Dancei num matadouro, como se o sangue de todos os animais que à minha volta pendiam degolados fosse o meu. Tratava-se de uma luz que nada tinha a ver com a piedade ou a esperança, mas cuja música, sem me passar pelos ouvidos, ia direita ao coração, que no dos animais acabados de abater por momentos encontrava um espelho ainda quente, tão diverso da algidez que habitualmente neles impera. O dia declinou-lhe nas entranhas, quantas manhãs as percorreram absorvidas pelas aberturas dos seus olhos mais não são agora do que um rastro de lume sobre a lâmina e nos baldes onde pinga, reduzidas a um furtivo clarão de dignidade de que todos de repente nos sentimos órfãos. É a respiração do ralo, que só então dou conta de que está dentro de mim, por uma dessas distorções a que é costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no próprio espelho, que, apesar de se encontrar à minha frente, não consigo deslocar dos avesso dos meus olhos. Os meus sentidos rangem, solidários com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um céu azul, desanuviado, e que jamais me dão do espírito visões onde não se encastoem nuvens e rebentem tempestades. Dos ossos que cravei na realidade, onde pensava que o mar se sustivesse e da qual sempre supus também que o mar se alimentasse (de tal forma por vezes o sentimos encher-se de realismo), nem um só, mesmo pintado, subsiste agora que o tempo tudo apaga à minha volta. O mundo, que os sentidos tonificam, surgia-nos então todo enterrado na nossa própria carne, envolto por vezes em ferozes transparências que as pedras acirravam sem outro intuito além do de extraírem às águas o silêncio que as unia. " " Sem outro intuito " 217 " Começam-nos as trevas a romper a carne, comparáveis a neve que do céu caísse ensanguentada ou pedra que, ao tombar num lago, o abrisse em sucessivos círculos, alguns dos quais já fora de água, em plena vida, alguém no meio da paisagem empunha um calorífico enquanto eu, que de roupa não trago mais que um lenço, com ele cubro a cabeça para não morrer, aqui ninguém ignora que os lagos gelam a partir das margens e o homem a partir do coração, que a luz ascende do vazio e tudo o que nos resta mais não é que um sol sem crédito num céu desafectado, envolvem-nos as trevas os ossos, dir-se-ia que a própria morte nos serve aqui de pele, como a um morcego. Agora lamentava que não fosse esse mesmo céu a vir-lhe aos lábios em vez daquelas palavras cuja significação, se efectivamente a chegara a conhecer, já entretanto se escapara do seu espírito. Sabia que pisava a estrada mas que por trás do asfalto estava o nada, e que portanto o que pisava era o vazio, e que o que via, sentia, cheirava e ouvia naquele dia de verão era, lá bem no fundo, a irrealidade, entre a qual e o seu corpo as sensações formavam um écran tão frágil que ele delas por vezes quase se podia abstrair, tocadas também elas já pelo vazio, como uns quantos sais que ao activarem-lhe os sentidos não dissimulassem a emulsão onde boiavam e de cujo efeito corrosivo começassem a ostentar sinais. E agora que, enredado nestes pensamentos, sentia o céu a trespassá-lo sem clemência e a ganhar algures dentro de si uma realidade que, quando ele o olhava, parecia dissipar-se, não estava certo de que não fosse o aparelho em que alguns momentos antes pensara o propulsor da sua caminhada, programado que estivesse para o controlar até aos mais recônditos recessos do seu espírito.

Brutalmente assassinado em Maio de 1995 no seu apartamento de Bruxelas, o poeta deixou inéditos alguns textos narrativos (a publicar brevemente) e instituiu por testamento a Fundação Luís Miguel Nava, que desde 1997 publica a revista Relâmpago e atribui um prémio anual de poesia.